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"Após a Cerrado de Pé a vida teve outro sentido para todo mundo"

Claudomiro de Almeida Cortes, atualmente diretor de Restauração da Associação Cerrado de Pé, recorda o início do trabalho com a coleta de sementes e diz que ao lado de mais de 700 coletores a preservação do Cerrado acontece e vidas são transformadas.

Um placeholder qualquer

Letícia Jury

04 de junho de 2024

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Claudomiro de Almeida Cortes trabalhava na agricultura familiar com o pai e os irmãos, até que em certo momento decidiu tornar-se brigadista. Entretanto, negociou com a família que sua atividade profissional no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros seria apenas durante a época da seca. Contudo, ele admite que não conseguiu cumprir essa promessa e, ao ser convidado pela direção do parque, acabou aceitando permanecer no local. Naquele momento, ele iniciava um dos projetos mais importantes de sua vida: a restauração e preservação do Cerrado por meio do plantio de sementes.

Atualmente, como diretor de restauração da Associação Cerrado de Pé, ele trabalha ao lado de mais de 700 coletores. Durante a entrevista ao Baru, ele compartilhou sobre seu primeiro contato com o projeto de defesa do bioma e sua ação prática de preservação. Ele descreveu como ver incêndios de perto despertou a necessidade de restaurar áreas degradadas. 

Para Claudomiro, a coleta de sementes vai além de uma fonte de renda; é uma paixão: "Nós fazemos este trabalho porque nascemos aqui e consideramos a Chapada dos Veadeiros como nossa casa. Foi aqui que nascemos e crescemos. A beleza desta chapada não tem palavras. Este lugar é a nossa casa, e estamos comprometidos em cuidar dele", enfatizou.

Letícia Jury - Como foi o início de tudo? A motivação inicial para o trabalho com sementes?  

Claudomiro Cortes - A principal motivação para a criação da Associação Cerrado de Pé foi a coleta de sementes e restauração ecológica do Cerrado. Mas vou te contar desde o início. Em 2007 eu combinei com meu pai, que seria brigadista no Parque Nacional e que faria o curso. A ideia é que eu trabalhasse de julho a novembro, que é a época seca; e ao vencer o contrato eu retornaria a roça. Mas venceu o contrato e o parque me pediu para continuar como serviços gerais. Eu aceitei. Eles me disseram que minha função seria atuar na Brigada. Só lembrando que sou filho de agricultor, de garimpeiro, trabalhei até 2007 junto ao meu pai e meus irmãos na agricultura familiar plantando arroz, feijão, milho, a famosa roça de topo, que é um sistema que os Kalunga ainda hoje usa bastante. 

Letícia Jury - Então ao compreender de perto a dinâmica do fogo você passou a perceber a necessidade da restauração? 

Claudomiro Cortes - Havia uma área de pastagem, que além de perder o controle dos incêndios, ela dava muita palha seca. E surgiu a ideia de restaurar aquela área do parque. A pastagem foi criada antes da criação do parque, em que o fazendeiro foi indenizado, ele tinha plantado 600 hectares para criar gado. Durante um incêncio ficamos sem entender porque passamos a noite toda controlando este incêndio, e o fogo espalhou muito. Um mês depois voltamos ao local e vimos que naquela área do parque tinha esta área de pastagem.

Letícia Jury -  Me recordo que li que em um desses incêndios, 80% do parque foi queimado. Você estava lá?

Claudomiro Cortes - Foi em 2009, que teve este incêndio no parque. Montamos uma estratégia de combate, diminuímos a linha de incêndio. Faltando 100 metros para controlar, perdemos o controle e fogo  queimou 80% do parque. 

Letícia Jury - Então teve início os projetos de restauração?

Claudomiro Corte - Em 2009, montamos um pequeno experimento, não sabíamos como restaurar o Cerrado, e para mim semente nativa do Cerrado não germinava, sabia que tem mudas pequenas, mas ouvíamos falar que para a semente nativa germinar precisava de fogo e de muita coisa. Mas montamos este experimento e conseguimos plantar 3 quilos e meio de semente em uma área de 5x5. Dois meses depois voltamos para ver se havia germinado e foi uma surpresa para nós. Tudo havia germinado e de lá para cá só aumentamos as áreas. Todo ano que a gente montava o experimento o resultado era bom. E precisávamos de mais sementes e de mais pessoas para coletar. Foi onde começamos a incluir pessoas da região. 

Letícia Jury - A pesquisa foi conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)?

Claudomiro Cortes - A pesquisa conduzida pelo ICMBio, em parceria com universidades, promoveu o treinamento sobre coleta de sementes nativas na região. E hoje temos muitos parceiros. Em 2017, essas famílias formalizaram a 'Associação Cerrado de Pé'. É importante dizer que o primeiro ponto é treinar os coletores, não só para coleta de sementes mas para o plantio. Estamos treinando para ser coletores e restauradores, e participar desde a coleta, o beneficiamento, o preparo do solo, ajudar a plantar, fazer a manutenção. Hoje são 240 famílias, dois a três coletores por família, cerca de 700 coletores em que mais de 70% são coletoras. Cintia de Oliveira Silva Carvalho é a nossa presidenta.

Letícia Jury - Hoje existe um reconhecimento da importância dos coletores?

Claudomiro Cortes - No início eles achavam que a gente era doido. E hoje sem sombra de dúvidas temos este reconhecimento. Muitas pessoas estavam esquecidas, não estavam sendo ouvidas. Isto não tem preço. Estamos falando de 240 famílias. No ano passado entregamos 28 toneladas, gerou mais de um milhão de vendas de sementes para estas comunidades. Aprendi com o Cerrado. Antes a minha vida não tinha direção, hoje com o 'Cerrado de pé' temos metas, é plantar sementes na quantidade de estrelas do céu. Não só para mim mas para todos os coletores, para todas as famílias, além da renda, conservação da chapada, da restauração, tem muito sentido, a vida tem outro sentido para todo mundo. 

Letícia Jury - Estamos na Semana do meio Ambiente. Qual a mensagem para os leitores do Baru?

Claudomiro Cortes - Não temos saída, se o mundo não comecar a preservar o pouco de natureza que ainda tem, se não restaurar as areas necessárias, daqui um tempo não tem água. O aquecimento global está mais forte a cada ano. A importância de preservar é muito grande, ou a gente faz ou não terá mais ser humano neste planeta. Fazemos este trabalho porque nascemos aqui e temos a Chapada dos Veadeiros como a nossa casa. Foi aqui que nascemos e fomos criados. A beleza desta chapada não tem palavras. Aqui é a nossa casa e estamos cuidando dela. 



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