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Vazamentos de gás natural podem ser tão ruins para o clima quanto o carvão, diz estudo

Apenas 0,2% de escape já o torna um problema tão grande quanto o carvão, alertam cientistas

Folha de São Paulo

20 de julho de 2023

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O gás natural, há muito considerado uma alternativa mais limpa ao carvão e uma ferramenta importante na luta para retardar o aquecimento global, pode ser igualmente prejudicial ao clima, concluiu um novo estudo, a menos que as empresas consigam eliminar os vazamentos que são comuns em seu uso.

É preciso que apenas 0,2% de gás natural vaze para que ele se torne um fator de mudança climática tão grande quanto o carvão, segundo o estudo. É uma pequena margem de erro para um gás conhecido por vazar dos locais de perfuração, usinas de processamento e tubulações que o transportam para usinas elétricas ou residências e cozinhas.

Resumindo: se o gás vazar, mesmo que um pouco, "é tão ruim quanto o carvão", disse Deborah Gordon, principal pesquisadora e especialista em política ambiental da Universidade Brown e do Instituto Rocky Mountain, organização de pesquisa sem fins lucrativos focada em energia limpa. "Não pode ser considerada uma boa ponte, ou substituto."

O estudo revisado por pares, que também envolveu pesquisadores das universidades de Harvard e Duke e da Nasa e será publicado nesta semana na revista Environmental Research Letters, acrescenta-se a um corpo substancial de pesquisa que contesta a ideia de que o gás natural seja um combustível de transição adequado para um futuro alimentado totalmente por energias renováveis, como solar e eólica.

As conclusões levantam perguntas difíceis sobre quanto mais dinheiro os países deverão investir em infraestrutura de gás para evitar o pior do aquecimento global.

A Lei de Redução da Inflação de US$ 370 bilhões aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos no ano passado, destinada a afastar o país dos combustíveis fósseis e levá-lo aos renováveis, inclui créditos que se aplicariam a algumas formas de gás natural.

Quando as empresas de energia geram eletricidade queimando gás natural em vez de carvão, emitem apenas cerca de metade da quantidade de dióxido de carbono que aquece o planeta.

Nos Estados Unidos, a mudança do carvão para o gás, impulsionada por um boom no fracking de petróleo e gás, ajudou a reduzir as emissões de carbono das usinas em quase 40% desde 2005.

Mas o gás natural é composto principalmente de metano, que é um gás de aquecimento do planeta muito mais potente, em curto prazo, do que o dióxido de carbono quando escapa sem ser queimado na atmosfera.

E há evidências crescentes de que o metano está fazendo exatamente isso: vazando de sistemas de gás em quantidades muito maiores do que se pensava anteriormente. Sensores e câmeras infravermelhas estão ajudando a visualizar vazamentos substanciais de metano da infraestrutura de petróleo e gás, e satélites cada vez mais poderosos estão detectando episódios de "superemissão".

O estudo mais recente avança essa ciência de várias maneiras. Ele considerou e comparou todo o "ciclo de vida" das emissões de gás natural e carvão, desde a perfuração e mineração do combustível até sua distribuição e queima.

Os pesquisadores também analisaram o gás natural e o carvão em todos os seus usos energéticos, além da geração de eletricidade. O gás, em particular, é amplamente utilizado como fonte de energia industrial, comercial e residencial para combustível, vapor, calor e energia.

Há outras compensações a serem consideradas. O dióxido de carbono expelido copiosamente pelas usinas de queima de carvão dura muito mais tempo na atmosfera do que o metano, que se dissipa após algumas décadas.

Portanto, concentrar-se nos vazamentos de metano da infraestrutura de gás, em detrimento do controle das emissões de carbono, significa que o mundo pode mitigar algum aquecimento em curto prazo, mas ainda enfrentar um aumento perigoso nas temperaturas médias dentro de muitas décadas.

Dito isso, com as consequências das mudanças climáticas já causando estragos em todo o mundo, controlar o metano seria uma maneira de retardar o aquecimento de forma mais imediata.

Pressionada sobre sua pegada climática, a indústria de petróleo e gás disse que fez progressos na detecção e eliminação de emissões não autorizadas. O monitoramento independente e a verificação dessas alegações serão cruciais, dizem os especialistas.

Robert Howarth, cientista de sistemas terrestres da Universidade Cornell que deu o alarme sobre vazamentos de metano há mais de uma década, chamou a análise de sólida.

"A conclusão deles é apontar mais uma vez que o gás natural talvez não seja melhor para o clima do que o carvão, principalmente quando visto através das lentes do aquecimento nos próximos 20 anos ou mais, o que obviamente é um momento crítico" para cumprir as metas climáticas, disse ele em um e-mail.

"Espero que o mundo das políticas e os líderes políticos prestem atenção a isso, pois temo que muitos permaneçam obcecados por simplesmente reduzir o uso de carvão, mesmo que resulte em maior consumo de gás", disse Howarth.

"O que o mundo exige é afastar-se de todos os combustíveis fósseis o mais rápido possível, para um futuro de energia 100% renovável."

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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