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Muvuca de sementes: uma técnica de recuperação do Cerrado na Chapada dos Veadeiros

O bioma vem sendo destruído num ritmo acelerado pela agropecuária intensiva, sobretudo na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Em 2023, o Cerrado perdeu 7.828 km2 de vegetação nativa, o que corresponde a um aumento de 43% em relação ao ano de 2022. 

Baru Observatório

28 de fevereiro de 2024

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Fonte: Instituto Sociedade, População e Natureza

“Coletar e plantar sementes na quantidade de estrelas do céu”. A frase poética de Claudomiro Almeida Cortes, um dos fundadores da Associação Cerrado de Pé, da Chapada dos Veadeiros (GO), transmite o propósito de vida que o coletor de sementes vem multiplicando no bioma mais ameaçado pelo desmatamento no Brasil. Por meio da técnica de “muvuca de sementes” – que surgiu da língua quicongo, de origem bantu africana, em que “muvúka” significa “aglomeração ruidosa de pessoas” – um grupo de pessoas, unidas por um mesmo ideal, mistura sementes variadas para recuperar a vegetação nativa.

A associação reúne 159 famílias da região da Chapada dos Veadeiros e recebe apoio do Projeto Cerrado Resiliente (Ceres), executado pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), por meio do Fundo PPP-ECOS, em parceria com o WWF-Brasil, WWF-Holanda e WWF-Paraguai, com recurso da União Europeia.

O trabalho de coleta de sementes promove inclusão social e gera renda à população local, além de contribuir com a restauração ambiental. Em 2023, foram coletadas 27 toneladas de sementes e, para 2024, “a meta é chegar a 30 toneladas”, afirma Claudomiro. As sementes são variadas: de árvores nativas mas, também, de capim (gramíneas), arbustos e ervas, estas últimas características da fitofisionomia cerratense.

O CERRADO

O Cerrado ocupa um quarto do território nacional, dos quais 50% encontram-se desmatados. Floresta invertida, com árvores de raízes profundas, armazena grandes estoques de carbono e capta água das chuvas que é armazenada nos lençóis freáticos. A água que brota do Cerrado chega à Amazônia, por meio de cerca de 3 mil nascentes, demonstrando a importância da conexão entre os biomas. 

Apesar de toda essa relevância, o bioma vem sendo destruído num ritmo acelerado pela agropecuária intensiva, sobretudo na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Em 2023, o Cerrado perdeu 7.828 km2 de vegetação nativa, o que corresponde a um aumento de 43% em relação ao ano de 2022

Segundo ecólogos, a restauração de áreas degradadas no Cerrado exige, além da reposição de árvores, o plantio de capim nativo. “Pelo estudo do ecossistema e a observação da paisagem, constatamos a importância de plantar herbáceas e gramíneas nativas que ajudam a reter a água no solo e a formar a caixa d’água do Brasil, junto com árvores e arbustos”, explica a coordenadora do Programa Cerrado e Caatinga do ISPN, Isabel Figueiredo.  

VISITA DE CAMPO

A frase de Claudomiro, que abre o texto, deu o tom da visita de campo que o ISPN e o WWF promoveram para mostrar de perto à União Europeia (UE) as ações apoiadas pelo Projeto Ceres. Entre 23 e 24 de novembro de 2023, o chefe de cooperação UE-Brasil, Robert Steinlechner, e a assessora de cooperação, Ana Gutierrez, puderam acompanhar a semeadura direta de espécies nativas em 15 hectares de área degradada (ex-pasto) dentro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e ouvir relatos e experiências da comunidade envolvida com o trabalho ambiental. “Façam esse sonho perene, engajando as gerações futuras. Quero voltar daqui a 30 anos e ver o resultado”, disse Ana Gutierrez.

Na ocasião da visita, foi utilizada uma calcareadeira adaptada para espalhar as sementes no solo do antigo pasto de braquiária – espécie exótica de capim usada para alimentar o gado.

O ecólogo Alexandre Sampaio, do ICMBio, um dos fundadores do projeto pioneiro Restaura Cerrado, diz que “ainda estamos engatinhando” sobre a restauração do bioma. “Desenvolvemos esse método com o envolvimento das pessoas locais, que conhecem a dinâmica da natureza. Ao longo dos anos, montamos o processo, que está em construção. Aos poucos, a função da água vai sendo restabelecida”, conta ele. 

O primeiro esforço de restauração foi em 2016, em parceria com a Associação Cerrado de Pé. Segundo ele, o desafio é enorme: restaurar 1,3 milhão de hectares só em Unidades de Conservação.*

Leia a matéria completa no link Muvuca de sementes: uma técnica de recuperação do Cerrado na Chapada dos Veadeiros - ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza

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